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Mariluci Melo Ferreira
 
 
Contestado: Caboclos em guerra - Parte III - 10/06/2016
 
Entre os anos de 1912 e 1916 milhares de caboclos foram dizimados pelas forças governamentais na região do Contestado, área fronteiriça disputada por Santa Catarina e Paraná. Depois de quase três anos de conflitos, cerca de 9 mil militares e civis, entre mortos, feridos e desertores desapareceram nos campos de batalha da Guerra do Contestado que deixou um rastro de sangue numa área de 15 mil km².
Em 1906 começou a ser construído um trecho de 372 Km da ferrovia que ligaria Itararé (São Paulo) a Santa Maria (Rio Grande do Sul). Como as obras estavam vagarosas o governo federal terceirizou o empreendimento e o americano Percival Farquhar comprou a concessão federal para a Brazil Railway Company. Atraído pela riqueza florestal da região contestada, cortada pelas ferrovias, o mesmo Farquhar instalou a grandiosa serraria Southern Brazil Lumber & Colonization para exploração da madeira da floresta de araucárias. A empresa adquiriu milhares de hectares de terras de forma fraudulenta. Escrituras expedidas pelo Paraná continham registros de terras em duplicata em Santa Catarina. Imóveis eram transferidos como terrenos devolutos a fazendeiros e políticos paranaenses e catarinenses. A época era do coronelismo e essas práticas ilícitas eram corriqueiras. Confusões armadas ocorreram entre os fazendeiros dos dois estados. A partir de 1912, o corpo de seguranças da Lumber começou a atacar os sertanejos do interior das matas, expulsando-os e provocando a ira cabocla, também revoltada pelo abate indiscriminado dos pinheiros. Os caboclos recorreram a sua religiosidade para lutar. Na falta de padres católicos, os sertanejos buscavam conforto espiritual nos monges e curandeiros que peregrinavam pela região, entre eles José Maria, que surgiu em Campos Novo. Morto em 1912 no Irani, José Maria continuou vivo na memória dos seus seguidores, em especial, no fazendeiro Eusébio Ferreira dos Santos e sua neta Teodora, na época tida como vidente. Ambos anunciaram a promessa da ressurreição de José Maria. A notícia logo espalhou-se, atraindo a população mística que se concentrou e se organizou na forma de acampamento religioso, a “cidade santa”. O governo de Santa Catarina, que os via como um bando de fanáticos, usou a força do Exército para dissolvê-los. Conflitos sangrentos ocorreram em Taquaruçu, Canoinhas, Curitibanos, Perdizinhas e Butiá Verde, e margens do rio Timbó. Depois de 4 anos de perseguições e de grande mortalidade, o movimento da região do Contestado foi desfeito. A fronteira entre o Paraná e Santa Catarina foi finalmente demarcada e o poder dos coronéis no interior foi consolidado.
 
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Frei Marcelo de Carvalho


Joel Anzolin Muliterno
Advogado


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