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Federico Andahazi integra a programação da 16ª Jornada Nacional de Literatura
Escritor argentino participará da mesa Por elas: a arte canta a igualdade, no dia 5 de outubro
 
Psicanálise, literatura, sexualidade, história. É na obra do escritor argentino Federico Andahazi que temas tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes se encontram. Autor de obras conhecidas e premiadas como O Anatomista, O livro dos prazeres proibidos e As piedosas, Andahazi encontrou na união de suas paixões uma forma de contar histórias. Em função disso, o escritor é um dos convidados da mesa de debates Por elas: a arte canta a igualdade, que será realizada no dia 5 de outubro, durante a programação da 16ª Jornada Nacional de Literatura, que acontece de 2 a 6 de outubro, em Passo Fundo/RS, e está com inscrições abertas.

Formado em Psicologia pela Universidade de Buenos Aires, Andahazi se dedicou a ler os clássicos da literatura argentina e universal ainda na adolescência, quando, fugindo da ditadura militar da época, se reunia com amigos em livrarias e bares na avenida Corrientes, rua emblemática da cultura portenha. Foi também nesse período que começou a escrever seus primeiros relatos. Curiosamente, foi a paixão pela literatura que o levou à psicanálise. “Quando lê-se Freud, na verdade lê-se Shakespeare, Goethe, a mitologia grega, então, há uma relação muito estreita entre a psicanálise e a literatura. Acontece com frequência, quando estou descrevendo um personagem e logo me dou conta que estou descrevendo uma história clínica, então, nesse momento, eu deixo de escrever e começo a mudar a direção... São duas atividades bastante parecidas”, lembra o escritor.

Apesar da proximidade com que Andahazi trabalha as duas áreas, o autor garante que pouco de suas experiências ou as de seus pacientes estejam em suas obras. Pelo contrário, o escritor tem como hábito situar suas histórias no passado. “O anatomista, As piedosas, Os livros dos prazeres proibidos são histórias que transcorrem no passado. Quase todos os romances surgem de personagens que realmente existiram, como o caso de Mateo Colombo em O Anatomista, como o caso de John Polidori em As piedosas, ou de Gutemberg em O livro dos prazeres proibidos, porém, eu concebo o romance histórico como um aporte de reconstrução mediante a ficção”, explica. Para Andahazi, a ficção é uma ferramenta da reconstrução histórica muito mais precisa do que a própria história, uma vez que, para ele, os historiadores, de maneira geral, têm interesses políticos, enquanto os escritores têm interesses literários. “Parece-me que muitas vezes a reconstrução da história por parte dos escritores é muito mais fiel, muito mais fidedigna do que os historiadores”, comenta o escritor que não acredita ser alguém que escreva sobre seus traumas ou sobre suas experiências. “Eu creio que a literatura é sempre uma conversação com outros livros, com outros autores. Enfim, pode ser que nós autores sejamos personagens, mais ou menos neuróticos, assim como talvez a história da literatura seja uma conversação entre distintos e sucessivos pacientes com transtornos psicopatológicos”, define.

Sexualidade e literatura de gênero
Assim como os personagens históricos, a sexualidade também é um tema muito presente na obra de Andahazi. Em O Anatomista, por exemplo, o leitor se depara com um personagem que descobre o clitóris e, consequentemente, certos segredos do prazer feminino. Mesmo tratando o assunto com naturalidade, o escritor acredita que a sexualidade segue sendo um enigma para todos, ele inclusive. “À medida que o tempo vai passando, acreditamos que a sexualidade representa menos mistérios, menos enigmas, porém, a verdade é que quando começamos a pensar a história da sexualidade, nos damos conta de que podem mudar as formas das perguntas, mas os mistérios, os enigmas, seguem sendo os mesmos. Afortunadamente, não é fácil encontrar a resposta para falar de sexualidade”, revela.

Tanto não é fácil que a sexualidade presente em suas obras acabou tirando de Andahazi um prêmio. Seu romance O Anatomista havia recebido o prêmio da Fundação Fortabat, na Argentina. A mentora da Fundação, no entanto, considerada uma das mulheres mais poderosas do país na época e uma espécie de mecenas de distintas disciplinas artísticas e literárias, não concordou com a premiação e, por questões morais, decidiu não conceder o prêmio ao escritor, que, apesar da polêmica, não acredita que a reação da mentora corresponda ao espírito da sociedade argentina. “Não foi somente na Argentina que encontrei esse problema. Quando apresentei meu livro em diferentes lugares, me deparei com problemas de censura. Na Turquia, no México, em diferentes países, me deparei com contradições bastante inesperadas, as quais não são exclusivas da Argentina”, lembra.

Muito relacionada à sexualidade, está também a questão da literatura de gênero. Na 16ª edição da Jornada, ao lado das escritoras Conceição Evaristo e Marina Colasanti, do integrante do Comitê brasileiro do #Heforshe, Edegar Pretto, e da representante da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, Andahazi foi convidado a debater o tema. Na opinião dele, o papel da mulher mudou muito nos últimos anos e muitos direitos e protagonismo foram conquistados, no entanto, isso ainda não é suficiente. Andahazi acredita que essa desigualdade está ainda muito presente no mercado de trabalho, inclusive na literatura, e vê a chamada literatura feminina como uma dessas desigualdades. “Não acredito que exista uma literatura feminina, acredito que a literatura em geral não tem fronteiras nem de gênero, nem de nacionalidade, nem um outro meio. Eu acredito que por trás da chamada literatura feminina há essencialmente literatura escrita por mulheres e é provável que uma obra escrita por mulheres vá fazer com que outras mulheres se identifiquem mais, se sintam mais compreendidas. Por isso, o alcance para criar um gênero como a literatura feminina”, ressalta.

Afeto pelo Brasil
Com a maior parte de suas obras traduzidas para o português e uma relação muito próxima com os leitores brasileiros graças às redes sociais, Andahazi garante que a expectativa para sua participação na Jornada Nacional de Literatura é muito grande. “Tenho uma relação de carinho muito particular com o Brasil, com a literatura e os escritores brasileiros que pude conhecer nas feiras e festivais dos quais já participei”, conta o argentino, que acredita que o Brasil sabe colocar sobre a literatura a mesma paixão que coloca sobre o futebol, coisa que na Argentina não acontece. “Temos aqui na Argentina uma feira do livro muito importante que reúne muita gente, porém, nossos leitores e até mesmo escritores são muito frios, desapaixonados. Penso que nesse sentido os leitores brasileiros têm uma relação muito mais próxima com seus escritores, enfim, muito mais apaixonada”, finaliza.

Sobre as Jornadas Literárias
A 16ª Jornada Nacional de Literatura e a 8ª Jornadinha Nacional de Literatura são promovidas pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pela Prefeitura de Passo Fundo. Os eventos contam com os patrocínios do Banrisul, da Corsan e da Companhia Zaffari & Bourbon, com o apoio cultural do Sesi e da BSBIOS, com a parceria cultural do Sesc. A realização é do Ministério da Cultura.

As inscrições para a Jornada e para a Jornadinha estão abertas e são limitadas. Para a Jornada, o público pode se inscrever tanto para o evento completo quanto para apenas uma das noites. Os interessados devem se inscrever no portal www.upf.br/16jornada. A programação completa também está disponível no site da Jornada. Informações podem ser obtidas pelo e-mail jornada@upf.br ou pelo telefone (54) 3316-8368.
 

Fonte: Jornalismo - Folha do Nordeste

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