COLUNISTAS

17/07/2026

Lagoa da Canção Nativista ressurge e quer recolocar Lagoa Vermelha no circuito dos grandes festivais

Após mais de três décadas, o Festival Lagoa da Canção Nativista está de volta. A quarta edição do evento marca o resgate de um importante patrimônio cultural de Lagoa Vermelha e representa uma das principais iniciativas recentes de valorização da música nativista no município.
O retorno do festival foi tema de entrevista no podcast Folha News, com a participação do vice patrão do Grupo Folclórico Bombacha Preta, dr. Aldemar Braghirolli, e do coordenador do festival, Gláucio Vieira. Durante a conversa, os dois detalharam o processo de retomada, a estrutura, os investimentos e os objetivos da quarta edição.
 
Um resgate que começou 
com a retomada da entidade
 
Segundo Aldemar Braghirolli, o retorno do Lagoa da Canção Nativista era um desejo presente desde a reorganização e regularização do Grupo Folclórico Bombacha Preta, ocorrida a partir de 2022. A entidade, fundada em 1981, construiu historicamente forte ligação com a cultura artística e tradicionalista de Lagoa Vermelha. Foi justamente dessa trajetória que nasceram as primeiras edições do festival, realizadas em 1991, 1992 e 1993. Depois da terceira edição, o evento deixou de ser promovido. Agora, o grupo pretende recuperar uma marca que considera parte de seu próprio legado para a comunidade.
Braghirolli destacou que outras entidades tradicionalistas de Lagoa Vermelha também construíram referências muito claras ao longo da história. O CTG Alexandre Pato é imediatamente associado ao rodeio e à Festa Nacional do Churrasco; o Grupo de Arte Nativa fortaleceu sua identidade em torno da chula e do sapateio; e o Piquete 35 mantém forte presença nas cavalgadas e atividades campeiras.
Para o Bombacha Preta, o grande símbolo histórico é justamente o festival. “O forte, digamos assim, seria o festival. Isso era um anseio que tínhamos quando resgatamos a entidade: buscar novamente o Lagoa da Canção Nativista”, destacou.
 
Festival deve custar cerca de R$ 200 mil
 
A realização de um festival nativista exige uma estrutura financeira significativa. Conforme Aldemar Braghirolli, as primeiras projeções indicavam custos entre R$ 250 mil e R$ 300 mil. A organização, no entanto, buscou negociações diretas e a redução de despesas, especialmente em ajudas de custo e na participação empresarial de produtoras. Com isso, a estimativa atual é de que o 4º Festival Lagoa da Canção Nativista tenha um custo entre R$ 200 mil e R$ 210 mil.
Os investimentos abrangem palco, sonorização, segurança, shows, comissões avaliadoras, ajudas de custo aos músicos e toda a estrutura burocrática necessária para os três dias de programação.
O festival conta com recursos vinculados ao Executivo Municipal e à Secretaria de Estado da Cultura, além da participação de patrocinadores e apoiadores. Segundo a organização, a estrutura essencial do evento já está assegurada. “Já temos uma projeção de ajudas de custo, já temos sonorização, palco e shows. Toda essa parte está garantida”, afirmou Gláucio Vieira.
Um festival para ficar
 
A proposta da comissão organizadora não é promover apenas uma edição isolada. A intenção é garantir continuidade ao Lagoa da Canção Nativista e recolocar Lagoa Vermelha no circuito estadual dos festivais.
Aldemar Braghirolli reconhece que a primeira edição deste novo momento exige um esforço maior. Depois de uma lacuna superior a 30 anos, o festival precisa novamente construir sua imagem diante de artistas, músicos, compositores, empresários e patrocinadores.
A expectativa é de que o sucesso da quarta edição abra caminho para a quinta, a sexta e as próximas edições. “O festival está montado, é realidade e vai acontecer”, assegurou Braghirolli.
Fase local terá espaço garantido
 
Um dos pontos considerados fundamentais pela organização é a realização da fase local. Segundo Gláucio Vieira, essa foi uma condição da qual a comissão não abriu mão durante a elaboração do regulamento. A fase será destinada a compositores nascidos ou residentes em Lagoa Vermelha. A composição poderá contar com músicos de outras cidades, mas o autor da letra ou da melodia deverá obrigatoriamente ser natural ou residente no município.
Para o coordenador, Lagoa Vermelha possui um verdadeiro manancial de talentos. “Muitos compositores de Lagoa Vermelha são reconhecidos fora e, muitas vezes, não têm o devido palco aqui na cidade”, observou. Já a fase geral estará aberta à participação de compositores e músicos de todo o Rio Grande do Sul e do Brasil.
Premiação e ajudas de custo
 
As composições classificadas na fase local receberão ajuda de custo de R$ 1 mil cada. Na fase geral, cada composição selecionada na triagem receberá R$ 4 mil de ajuda de custo. As músicas que avançarem à final terão ainda mais R$ 1 mil, considerando a necessidade de permanência dos músicos na cidade por mais um dia.
A premiação financeira será de R$ 6 mil para o primeiro lugar, R$ 4 mil para o segundo e R$ 3 mil para o terceiro colocado. Também haverá premiação em dinheiro para melhor intérprete e melhor instrumentista. As demais distinções serão entregues por meio de troféus. A comissão ainda trabalha na definição dos nomes que serão dados aos troféus. A proposta é homenagear personalidades ligadas à história cultural e musical.
Palco para novos talentos
 
Gláucio Vieira ressaltou que a premiação financeira não é, necessariamente, o principal objetivo de quem participa dos festivais nativistas. Historicamente, esses eventos funcionam como espaços de visibilidade, formação de contatos e reconhecimento entre músicos, intérpretes e compositores.
“O palco do festival ainda é o palco principal para muitos músicos. É um espaço avalizado pelos próprios pares e que pode abrir uma grande rede de contatos”, explicou.
A expectativa da organização é receber composições de qualidade e atrair nomes expressivos da música regional e nativista. As músicas inscritas passarão inicialmente por um processo de triagem. Posteriormente, as comissões avaliadoras definirão as obras que subirão ao palco. A fase local e a fase geral terão comissões específicas. Os nomes dos avaliadores serão oficialmente divulgados durante o lançamento do festival.
 
Músicas devem retratar a 
identidade regional
 
Outro diferencial defendido pela organização é a valorização da identidade cultural de Lagoa Vermelha e dos Campos de Cima da Serra. Embora o tema seja livre, a proposta é que as composições tenham relação com a vivência regional, seus costumes, paisagens, hábitos e características culturais. Uma argola de laço, uma cuia, uma roda de chimarrão ou o fim de tarde em um galpão podem servir de inspiração para as composições. Aldemar Braghirolli destacou que o objetivo é construir um festival com identidade própria. “Queremos um festival enxuto, modesto, mas de qualidade. Que retrate em música a nossa vivência de Lagoa Vermelha e dos Campos de Cima da Serra”, salientou.
 
Jantar de lançamento será no dia 28
 
A estrutura completa do 4º Festival Lagoa da Canção Nativista será apresentada no dia 28, durante jantar de lançamento no Restaurante Fattoria. Na oportunidade, serão divulgados o site oficial, as redes sociais específicas do evento, as comissões avaliadoras, os shows contratados, os apoiadores, patrocinadores e demais detalhes da programação.
A organização também reforça o convite para que empresários e lideranças da comunidade participem do projeto. Para Aldemar Braghirolli, a comunicação digital permitirá que o festival projete Lagoa Vermelha muito além das fronteiras do município.
Música gaúcha vive bom momento
 
Durante a entrevista à Folha News, Gláucio Vieira também avaliou o atual cenário da música gaúcha. Na sua visão, mesmo diante das profundas transformações nas mídias e nas formas de consumo musical, os festivais continuam exercendo uma função cultural fundamental.
Conforme Vieira, mais de 30 festivais são realizados atualmente, todos os anos, mantendo viva uma importante rede de produção musical.
Além do entretenimento e da emoção, a música também pode provocar reflexão e estimular o pensamento crítico. “A música tem a obrigação de divertir, de emocionar ou de fazer pensar. Se ela atinge as três coisas, nós temos uma obra-prima”, afirmou. Para o coordenador, a música gaúcha vive um momento positivo, especialmente pelo surgimento de novos talentos. Os festivais, nesse cenário, permanecem como importantes portas de entrada para artistas que buscam espaço e reconhecimento.
Inscrições abrem em 1º de agosto
 
As inscrições para o 4º Festival Lagoa da Canção Nativista começam no dia 1º de agosto e serão gratuitas.
Todo o procedimento será realizado por meio de um sistema digital, desenvolvido para garantir organização, transparência e lisura ao processo de seleção. Gláucio Vieira fez um chamado especial aos músicos e compositores de Lagoa Vermelha para que iniciem desde já a preparação de suas obras. Segundo ele, construir uma letra, organizar músicos e realizar a gravação de uma composição exige tempo.
“Quero convocar realmente os nossos talentos locais. Os músicos de Lagoa Vermelha precisam se mobilizar para que gravem suas canções”, reforçou.
A organização garante que todas as músicas regularmente inscritas serão submetidas à avaliação da comissão.Com a retomada do Lagoa da Canção Nativista, o Grupo Folclórico Bombacha Preta pretende não apenas reviver um evento do passado, mas construir um novo capítulo para a cultura de Lagoa Vermelha e consolidar novamente o município no calendário dos grandes festivais nativistas. A entrevista completa com o dr. Aldemar Braghirolli e Gláucio Vieira pode ser conferida no canal Folha News LV, no YouTube do Jornal Folha do Nordeste.

Outras colunas deste Autor