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Quando a sustentação da economia estremece: Gerdau, Casas Bahia e os sinais que o mercado insiste em nos dar - 21/08/2026

Em menos de duas semanas de agosto, duas notícias balançaram setores distintos da economia brasileira, mas contaram, no fundo, a mesma história. De um lado, a Gerdau anunciou a reestruturação de sua unidade Açonorte, no bairro do Curado, em Recife, encerrando as operações de aciaria e laminação e demitindo cerca de 160 trabalhadores, mantendo apenas a produção de aço trefilado.
De outro, a Casas Bahia, uma das marcas mais tradicionais do varejo nacional, fechou de uma só vez 298 lojas - quase 29% de sua rede física, cortando entre 1,9 mil e 3 mil postos de trabalho. São episódios de naturezas diferentes, um na indústria de base, outro no varejo de bens duráveis, mas que, analisados em conjunto, desenham um retrato preocupante da atividade econômica brasileira neste segundo semestre de 2026.
 
O QUE ACONTECEU
No caso da Gerdau, a companhia, maior produtora de aço do país, justificou a decisão pelas atuais condições de mercado, citando dificuldades de exportação e o cenário desafiador enfrentado pelo setor siderúrgico. A unidade do Curado não fechou por completo: os setores de aciaria e laminação foram paralisados, e a fábrica passará a concentrar sua produção em produtos trefilados, como arames, telas e pregos, mantendo cerca de 450 postos de trabalho, cujos trabalhadores poderão aderir a um programa de PDI.
Ainda assim, o corte de 160 vagas e a redução do escopo da planta são sintomas de uma indústria que opera sob pressão de custos, câmbio e concorrência internacional, sobretudo diante do excesso de aço importado que segue pressionando o mercado interno.
Já a Casas Bahia vive um momento mais dramático, pois já vinha em processo de reestruturação financeira desde 2023, acumulando prejuízos bilionários - em torno de R$ 3 bilhões em 2025 - e mais de R$ 1 bilhão só no primeiro trimestre de 2026. O fechamento de quase 300 lojas em uma única rodada, decisão que o próprio presidente da companhia definiu como parte da segunda fase de um plano de transformação, veio acompanhado de sucessivos adiamentos na divulgação do balanço trimestral, apontando para o mercado que a situação era mais grave do que se supunha. Dias depois, a empresa confirma também um pedido de recuperação judicial, com dívidas que ultrapassam R$ 17 bilhões.
 
AS CAUSAS POR TRÁS 
DOS NÚMEROS
Mesmo sendo de segmentos distintos e com formas e práticas de gestão também diferentes, cada empresa aponta razões próprias, como condição de mercado, no caso da Gerdau, e retração do consumo e excesso de estrutura física, no caso da Casas Bahia. Mesmo assim, é possível identificar fatores comuns que atravessam os dois casos:
• Juros elevados e crédito mais restrito: encarecem o financiamento tanto das empresas quanto dos consumidores, reduzindo o consumo de bens duráveis (móveis, eletrodomésticos) e de insumos industriais, como o aço. 
• Migração do consumo para o comércio eletrônico: segue crescendo de forma consistente, enquanto as operações físicas perdem espaço e se tornam custos fixos difíceis de sustentar. 
• Pressão de custos operacionais: com margens já estreitas, em um cenário de câmbio volátil e concorrência de produtos importados a preços mais baixos. 
• Anos de reestruturação incremental que se mostraram insuficientes: as organizações tomam decisões mais drásticas e concentradas, algo como “arrancar o curativo de uma vez”, palavras do próprio CEO da Casas Bahia. 
 
AS CONSEQUÊNCIAS 
IMEDIATAS
O impacto mais visível, sem dúvida, é o social: milhares de famílias perdem sua fonte de renda em um curto espaço de tempo, em regiões que dependem fortemente desses empregadores. No caso do Estado de Pernambuco, por exemplo, onde a Gerdau é peça relevante da cadeia produtiva do aço no Nordeste, há efeitos potenciais sobre logística de abastecimento e preços regionais, uma vez que a indústria, independentemente de sua área de atuação, possui diversas outras empresas - como fornecedores e prestadores de serviços - que também sucumbem diante desse cenário.
No varejo, o fechamento de lojas físicas tende a acelerar a concentração do mercado, favorecendo concorrentes mais capitalizados ou mais avançados em digitalização. Para o consumidor, isso pode significar menos pontos de atendimento presencial, especialmente em cidades menores, onde a loja física ainda é a porta de entrada para o crédito e para a compra de eletrodomésticos.
Há também um efeito sobre a confiança do mercado financeiro: adiamentos de balanço, como os da Casas Bahia, tendem a gerar desconfiança entre investidores e credores, encarecendo ainda mais o custo de capital da empresa em um momento em que ela mais precisa dele. Uma situação muito semelhante à das Lojas Americanas, em 2023, porém, esta última criada com dolo e conluio com a Auditoria Independente da empresa à época.
QUE SINAL ESSES FATOS 
NOS TRAZEM?
Analisados isoladamente, poderiam ser interpretados como problemas específicos de gestão ou de posicionamento estratégico de cada companhia. Mas, postos lado a lado - a maior siderúrgica do país reduzindo capacidade produtiva e uma das maiores varejistas nacionais encolhendo quase um terço de sua rede em poucos dias -, convictamente transformam-se em um termômetro de dois elos importantes da cadeia econômica: a produção industrial de base e o consumo das famílias.
Quando a indústria de base desacelera e o varejo de bens duráveis recua ao mesmo tempo, é um indicativo de que a atividade econômica como um todo está sob pressão, e isso ocorre não apenas por fatores conjunturais isolados, mas por um ambiente de juros altos, crédito caro e consumo retraído, que atinge simultaneamente quem produz e quem vende. Para gestores, investidores e formuladores de política econômica, esses movimentos merecem atenção redobrada: quando empresas de grande porte, com décadas de tradição e capital societário 100% nacional, precisam recorrer a cortes dessa magnitude, é sinal de que os desafios não são apenas internos, mas também reflexo de um cenário macroeconômico que pede cautela e resposta.
Um fator também agravante, sob o ponto de vista econômico, é a queda de mais 0,25 ponto percentual da taxa Selic, chegando ao limiar de 14%. Isso afasta os investidores externos, enrugando uma economia que, por si só, já sofre com as suas próprias engrenagens. Esse fato, também isolado, internamente pode até alavancar o consumo, uma vez que torna o crédito mais barato e o acesso a itens de consumo e financiamentos mais facilitado. Porém, de outro ângulo, o investidor que objetiva retorno e não aplica para perder procura qualquer outro ativo que ofereça um retorno maior que 14% (lembrando que haverá, ainda, duas reuniões do Copom até o final do exercício de 2026).

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