COLUNISTAS

21/08/2026

A PASSAGEM DE ZUCCO POR LAGOA 
VERMELHA: ENTRE O DISCURSO, OS 
COMPROMISSOS E O TESTE DA REALIDADE
A presença de Luciano Zucco e Silvana Covatti em Lagoa Vermelha, nesta quarta-feira, 19 de agosto, não pode ser analisada apenas pelo tamanho do público que compareceu ao CTG Alexandre Pato, pelos discursos feitos no palco ou pela fotografia das lideranças reunidas em torno da chapa. Para quem acompanha política há algum tempo, encontros como esse precisam ser observados pelo que revelam além do protocolo.
Foi, evidentemente, um ato eleitoral. Havia candidatos, apoiadores, prefeitos, vereadores, lideranças partidárias e um ambiente construído para apresentar e fortalecer uma candidatura. Isso faz parte da campanha. Mas, para Lagoa Vermelha, a passagem de um candidato ao Governo do Estado ganha importância quando ele é colocado diante dos problemas reais da comunidade. E foi justamente nesse ponto que a visita de Zucco se tornou mais interessante.
 
O EVENTO E A MENSAGEM POLÍTICA
Zucco chegou a Lagoa Vermelha tentando transmitir uma mensagem bastante clara: pretende representar mudança, mas uma mudança que ele próprio classificou como responsável. Seu discurso mistura críticas ao atual modelo de gestão com a defesa de algumas linhas bastante definidas: maior liberdade econômica, redução da burocracia, fortalecimento do empreendedorismo, investimentos em infraestrutura, educação profissionalizante, segurança pública mais rígida e uma aproximação política com administrações que considera referências, especialmente Santa Catarina. É uma narrativa eleitoral coerente com o perfil político que construiu nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, existe um desafio que a própria composição de sua coligação expõe. A chapa não é formada apenas por forças políticas que estiveram fora das últimas administrações estaduais. Pelo contrário. Ronaldo Santini, durante sua própria manifestação e posteriormente em entrevista à Folha do Nordeste, foi bastante transparente ao reconhecer que parcela expressiva das lideranças que hoje acompanha Zucco participou dos últimos governos do Estado.
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes desta campanha: como apresentar uma ideia de mudança contando também com protagonistas de administrações anteriores?
Não necessariamente existe contradição nisso. Política exige composição. Mas será necessário explicar ao eleitor o que será continuidade, o que será corrigido e o que efetivamente será diferente.
 
SILVANA REPRESENTA A PONTE
É exatamente nesse cenário que Silvana Covatti passa a ter um papel que talvez seja maior do que simplesmente ocupar a posição de candidata a vice-governadora. Silvana traz experiência. Conhece a Assembleia Legislativa, conhece o Executivo, conhece a realidade municipal e possui trânsito político que ultrapassa as fronteiras do próprio Progressistas.
Isso apareceu claramente no encontro. Enquanto Zucco procura representar energia, enfrentamento, mudança e uma identidade mais vinculada à direita, Silvana parece ocupar o espaço da articulação, da experiência administrativa e do diálogo político.
Não por acaso, diferentes manifestações durante o evento ressaltaram essa característica. Uma chapa ao Governo do Estado não pode depender apenas da popularidade ou capacidade eleitoral de seu candidato principal. Se vencer, precisará construir maioria parlamentar, conversar com prefeitos, negociar projetos e encontrar soluções para um Estado que continua convivendo com limitações financeiras históricas. Nesse aspecto, Silvana pode ser uma peça relevante.
 
E LAGOA VERMELHA?
Como jornalista de Lagoa Vermelha, a minha preocupação diante de qualquer candidato ao Governo do Estado precisa ser mais objetiva. O que essa candidatura representa concretamente para nossa comunidade?
Por isso, durante a coletiva, fiz questão de colocar na mesa a situação do Hospital São Paulo. Não seria razoável receber um candidato ao Governo do Estado, falar de grandes projetos, ideologia, Brasília ou desenvolvimento e deixar passar uma questão que está diante de nós diariamente. O Hospital São Paulo é muito maior do que uma instituição de Lagoa Vermelha. É uma estrutura regional. Atende pacientes de diferentes municípios e enfrenta uma realidade financeira que há muito tempo preocupa sua direção, médicos, funcionários, lideranças e a própria comunidade. Quando questionei Zucco sobre qual seria sua relação com os hospitais regionais e apresentei a situação do Hospital São Paulo, sua resposta produziu talvez o compromisso mais concreto de sua visita.
 
O HOSPITAL SÃO PAULO 
ENTROU NA AGENDA
Zucco afirmou que pretende analisar os repasses estaduais, citou diretamente o Programa Assistir e admitiu que poderá haver uma repactuação caso seja necessário.
Mais tarde, no palco, foi ainda mais direto. Disse ao prefeito que Lagoa Vermelha poderia contar com seu apoio e afirmou publicamente: “Nós vamos ajudar o Hospital São Paulo”. Essa frase tem importância. Não porque uma declaração feita em campanha resolva os problemas de uma instituição hospitalar. Evidentemente que não. Mas porque compromissos públicos precisam ser registrados. A política também se constrói assim: candidatos apresentam propostas e assumem compromissos; a imprensa registra; a população escolhe; e, posteriormente, aqueles que vencem precisam ser confrontados com aquilo que disseram durante a campanha.
Se Zucco vencer a eleição, a frase pronunciada em Lagoa Vermelha estará registrada. E será legítimo perguntar: o que o Governo do Estado fará pelo Hospital São Paulo?
 
NÃO BASTA APENAS AUMENTAR REPASSES
Também considero importante destacar outro aspecto da resposta de Zucco. Ele não concentrou sua fala exclusivamente nos hospitais. Defendeu o fortalecimento da atenção primária e dos postos de saúde municipais, argumentando que muitos problemas podem ser resolvidos antes de o paciente precisar chegar a uma instituição hospitalar.
O raciocínio faz sentido dentro de qualquer planejamento sério de saúde pública. Hospital não pode ser porta de entrada para tudo. Quanto mais eficiente for a atenção básica, maiores são as possibilidades de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento antes do agravamento das doenças. Porém, existe outro lado: fortalecer a atenção básica não elimina a necessidade de financiar adequadamente hospitais que atendem média e alta complexidade.
Esse será o desafio. E não é um desafio exclusivo de Zucco. Vale para qualquer candidato que pretenda governar o Rio Grande do Sul.
 
UM DISCURSO QUE CONVERSA 
COM SUA BASE
Outro aspecto bastante evidente foi a linguagem utilizada por Zucco. O candidato sabe com quem está falando.
Quando compara o Rio Grande do Sul com Santa Catarina, quando critica administrações de esquerda, quando fala em liberdade econômica, segurança pública, redução de estruturas governamentais e valorização do agronegócio, dialoga diretamente com uma parcela do eleitorado que já possui identificação com sua candidatura.
Para quem estava no CTG Alexandre Pato, foi um discurso capaz de produzir identificação. A campanha, entretanto, não será disputada apenas dentro desse ambiente.
O desafio de Zucco estará justamente fora dele. Para vencer uma eleição estadual será necessário ultrapassar a fronteira do eleitor já convencido e dialogar com setores de centro, indecisos e cidadãos que esperam respostas menos ideológicas e mais administrativas.
O próprio Santini reconheceu esse desafio ao falar da necessidade de aproximação com o centro político em uma eventual segunda etapa da disputa.
 
DO DISCURSO PARA OS NÚMEROS
É nesse momento que a campanha precisará amadurecer. Dizer que saúde será prioridade é importante. Dizer que hospitais receberão atenção é necessário. Prometer reduzir burocracia, melhorar infraestrutura, fortalecer aeroportos, recuperar rodovias, ampliar irrigação, melhorar educação e enfrentar facções criminosas produz um discurso abrangente. Mas campanha para Governo do Estado precisa chegar a uma segunda pergunta: como?
Quanto custará? De onde virão os recursos? O que será prioridade nos primeiros cem dias? O que poderá ser executado diretamente pelo Estado e o que dependerá de Brasília? São perguntas que deverão acompanhar Zucco, Silvana e também todos os demais candidatos ao longo das próximas semanas.
É justamente esse aprofundamento que permite separar uma boa manifestação eleitoral de um projeto efetivamente preparado para governar.
 
LAGOA VERMELHA PRECISA 
APROVEITAR A CAMPANHA
Existe ainda uma responsabilidade nossa enquanto comunidade. As eleições não devem servir apenas para receber candidatos, tirar fotografias e promover encontros. Este é exatamente o período em que Lagoa Vermelha precisa apresentar sua pauta. Hospital São Paulo, infraestrutura regional, BR-285, desenvolvimento econômico, acesso rodoviário, saúde, educação, segurança, fortalecimento do agronegócio e melhores condições para investimentos precisam aparecer diante de todos os candidatos.
Não importa a sigla. Quem pretende governar o Rio Grande do Sul precisa saber o que Lagoa Vermelha espera do próximo governo. Zucco esteve aqui e ouviu algumas dessas reivindicações. Outros candidatos também deverão passar pelo município e precisam ser igualmente questionados. Esse é o papel da imprensa e também das lideranças locais.
 
A VISITA DEIXOU UM COMPROMISSO
Politicamente, o encontro foi importante para a coligação. Demonstrou capacidade de mobilização, reuniu diferentes partidos, aproximou lideranças municipais e permitiu a Zucco e Silvana iniciar uma presença mais efetiva nesta região. Silvana mostrou experiência e capacidade de articulação. Zucco apresentou um discurso firme, adequado ao perfil de seu eleitor e procurou transmitir segurança sobre aquilo que pretende executar.
Mas, olhando exclusivamente pelos interesses de Lagoa Vermelha, considero que o ponto mais importante aconteceu quando o debate saiu das grandes questões estaduais e chegou a um problema que está logo ali, diante de nós. O Hospital São Paulo.
Foi perguntado. Foi discutido. Houve uma resposta. E houve um compromisso público.
Agora, a campanha continuará. Caberá ao eleitor decidir se acredita no projeto apresentado. À imprensa, continuará cabendo perguntar.
E, independentemente de quem vença em outubro, Lagoa Vermelha terá todo o direito de cobrar do próximo governador aquilo que lhe foi apresentado durante a campanha. Porque, no final das contas, política séria não deve terminar no aplauso de um evento.
É depois dele que começam as cobranças.

Outras colunas deste Autor