COLUNISTAS
28/08/2026
A ENTREVISTA DE RANGEL E O
QUE ELA REVELA ALÉM DE 2026
A entrevista que realizei com o presidente do PSB de Lagoa Vermelha, médico Rangel Vinícius Guedes, trouxe declarações importantes sobre as eleições deste ano. Mas, numa leitura mais política, talvez o principal não esteja propriamente nos nomes citados ou nas previsões de resultado. Está nos movimentos que começam a ser desenhados no município.
Rangel falou de Juliana Brizola, Lula, Beto Albuquerque, André Oliveira, Senado, governo municipal e Hospital São Paulo. Entretanto, politicamente, sua entrevista permite identificar algo maior: o esforço de reorganização de um campo que saiu dividido da eleição municipal e agora tenta construir unidade. E isso merece atenção.
A REAPROXIMAÇÃO
Na última eleição municipal, PSB e PT estiveram em posição adversária ao PDT em Lagoa Vermelha. Não foi uma divergência apenas formal de siglas. Houve disputa eleitoral, discursos distintos e projetos colocados em lados diferentes.
Agora, o cenário é outro. PSB, PT e PDT caminham juntos em torno de Juliana Brizola ao Governo do Estado e compartilham também uma construção política no plano nacional. Rangel procurou separar claramente as duas eleições. Para ele, questões municipais possuem uma dinâmica própria e não impedem entendimento nas disputas estadual e nacional.
É uma explicação coerente com a lógica partidária brasileira. Alianças mudam conforme o nível da eleição, e adversários num município podem perfeitamente integrar a mesma coligação no Estado.
Mas, em política, reaproximações também produzem consequências. Não significa que PSB, PT e PDT já estejam construindo uma chapa para 2028. Seria precipitado afirmar isso. Significa, porém, que lideranças que até pouco tempo estavam eleitoralmente separadas voltam a conversar, organizar campanha, dividir espaços e defender candidatos em comum. Isso naturalmente reduz distâncias.
2026 PODE SER UM LABORATÓRIO
A eleição deste ano servirá, de certa forma, como teste para essa convivência. Campanhas aproximam pessoas. Exigem reuniões, agendas, divisão de tarefas e decisões conjuntas. Dependendo do resultado e, principalmente, da qualidade dessa relação, o processo pode terminar em outubro ou continuar depois.
Por isso, talvez um dos aspectos mais interessantes da entrevista tenha surgido quando o assunto avançou para 2028. Rangel não anunciou alianças futuras. Também não apresentou candidatura própria. Ao contrário, afirmou que, neste momento, não pretende disputar a Prefeitura.
Mas deixou aberta a ideia de construção coletiva e reconheceu que toda eleição agrega politicamente. É exatamente aí que 2026 passa a ter importância local além dos votos para governador, presidente, senador ou deputado. Será também uma oportunidade para medir forças.
JULIANA É A PONTE?
Rangel demonstrou grande confiança em Juliana Brizola. Talvez até confiança acima daquela que uma análise exclusivamente eleitoral recomendaria neste momento. Sua projeção é de segundo turno, vitória estadual e, mais do que isso, primeiro lugar em Lagoa Vermelha.
É uma aposta bastante ousada. Lagoa Vermelha apresentou nos últimos pleitos um comportamento eleitoral majoritariamente favorável à direita nas disputas estaduais e nacionais. Esse histórico não desaparece simplesmente porque uma candidatura possui capacidade de dialogar com o centro.
Por outro lado, há um elemento político interessante na argumentação de Rangel. Ele acredita que Juliana pode chegar onde outros candidatos do mesmo campo tiveram dificuldade: ao eleitor que não se identifica propriamente como de esquerda.
Se isso ocorrer, sua candidatura poderá representar uma espécie de ponte entre o eleitorado tradicional do PDT, setores de esquerda e uma parcela mais moderada.
Esse talvez seja o verdadeiro teste da candidatura em Lagoa Vermelha. Não é apenas saber quantos votos Juliana terá. É descobrir se haverá transferência real entre eleitorados que, localmente, nem sempre caminharam juntos.
OTIMISMO E URNA
SÃO COISAS DIFERENTES
É natural que um presidente partidário demonstre confiança nos candidatos que apoia. Rangel fez exatamente isso. Projetou Juliana no Governo do Estado, apostou numa ampliação da votação de Lula e mostrou confiança nas candidaturas proporcionais apoiadas pelo PSB.
O papel do jornalista, porém, é separar a convicção do entrevistado da realidade eleitoral que ainda será construída. Pesquisa é fotografia do momento. Aprovação de governo não equivale automaticamente a voto. Rejeição de uma administração municipal também não significa necessariamente adesão ao campo político adversário numa eleição estadual. O próprio Rangel reconheceu parcialmente essa diferença ao dizer que aprovação não se transforma automaticamente em voto.
Essa ressalva é importante. Lagoa Vermelha poderá apresentar mudanças eleitorais em 2026? Evidentemente. Mas saber a dimensão dessa mudança exige urna aberta.
O DESAFIO DA ESQUERDA
Um dos melhores momentos políticos da entrevista, na minha avaliação, ocorreu quando Rangel deixou de analisar apenas os adversários e fez uma autocrítica. Ele reconheceu que a esquerda precisa compreender melhor o eleitor atual. Essa observação talvez seja mais importante para o PSB e seus aliados do que qualquer previsão de resultado.
Durante muito tempo, parte da política brasileira acreditou que bastava repetir determinadas bandeiras para conservar eleitorados. As redes sociais mudaram profundamente esse ambiente. A direita compreendeu antes a capacidade de comunicação rápida, direta e emocional dessas plataformas. Em muitos casos, transformou isso numa poderosa estrutura eleitoral.
Rangel critica aquilo que chama de “lacração de internet”, mas ao mesmo tempo admite que seu próprio campo precisa aprender a comunicar melhor. É uma leitura relevante. O desafio, entretanto, não é simplesmente copiar a estratégia adversária. É encontrar uma linguagem capaz de transformar propostas, realizações e projetos em comunicação compreensível para um eleitor que consome política de maneira completamente diferente de 20 anos atrás.
BETO E A BUSCA POR REFERÊNCIAS
A aposta em Beto Albuquerque também possui uma lógica interessante. Num cenário de grande fragmentação, o PSB procura trabalhar com um nome que já possui história política e relação com Lagoa Vermelha. Rangel utiliza justamente esse histórico como contraponto aos candidatos que surgem essencialmente pela força das redes sociais.
É uma escolha estratégica. Resta saber se o eleitor de 2026 ainda atribuirá o mesmo peso à trajetória política ou se continuará valorizando mais fortemente personagens construídos no ambiente digital.
Essa disputa entre experiência política e exposição virtual será uma das questões interessantes desta eleição.
O FATOR MUNICIPAL
Também não passou despercebida a avaliação dura de Rangel sobre a administração de Eloir Morona. Como presidente de um partido de oposição, a crítica não surpreende.
O que merece acompanhamento é a tentativa de relacionar eventual insatisfação municipal ao desempenho das candidaturas estaduais e nacionais apoiadas pelo PSB.
Essa transferência não é automática. Um eleitor pode desaprovar um prefeito e continuar votando em candidatos estaduais do mesmo campo político. Da mesma forma, pode aprovar um governo federal e não votar no candidato apoiado por ele para governador.
O eleitor brasileiro aprendeu, em muitos casos, a separar as diferentes urnas. Portanto, o desgaste ou a aprovação de governos será um componente importante, mas não necessariamente determinante.
2028 ESTÁ LONGE, MAS
NÃO TÃO LONGE ASSIM
Quando perguntei a Rangel sobre uma eventual candidatura a prefeito, ele foi categórico ao responder que, neste momento, não pretende concorrer. A justificativa apresentada foi profissional. É uma resposta que deve ser considerada exatamente como foi dada: hoje, ele não se coloca como candidato.
Mas política tem tempo próprio. Entre agosto de 2026 e as convenções municipais de 2028 existe uma distância enorme em termos políticos. Governos podem crescer ou se desgastar. Lideranças podem surgir. Alianças podem se consolidar ou desaparecer. Por isso, mais importante do que tentar antecipar nomes é observar os movimentos. E um deles já está evidente: forças que estiveram separadas em Lagoa Vermelha estão novamente sentadas do mesmo lado da mesa.
A ELEIÇÃO DENTRO DA ELEIÇÃO
Talvez seja esse o principal significado político da entrevista de Rangel. Existem duas eleições acontecendo simultaneamente. A primeira é aquela que todos enxergam: disputa pelo Governo do Estado, Presidência, Senado, Assembleia Legislativa e Câmara Federal. A segunda é mais silenciosa.
É a eleição que reorganiza lideranças locais, mede capacidade de mobilização, aproxima antigos adversários, identifica novos nomes e prepara o terreno para o próximo pleito municipal.
Rangel falou muito sobre 2026. Mas, em diversos momentos, sua entrevista acabou revelando também peças de um tabuleiro que só estará completamente montado em 2028. Até lá, previsões continuarão sendo previsões. E política, como sempre, será decidida muito mais pelos movimentos do caminho do que pelas certezas anunciadas antecipadamente.
A entrevista aprofundada está disponível no canal de YouTube Folha News LV e também nesta edição.


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