COLUNISTAS
Otimismo 03/01/2025
Nós os brasileiros somos realmente otimistas por excelência, aqueles que cultuam o pessimismo são considerados raras exceções.
Acreditamos com todas as nossas forças que Deus é brasileiro, que vivemos em uma terra aonde nada se perde, tudo se transforma, e ainda que tudo é destruído de dia a natureza reconstrói à noite.
Desmatamos, destruímos fauna e flora, poluímos as águas, mas deixa “pra lá”, nós não vivemos em um mundo normal, tudo isto não nos afetará, temos a certeza que as consequências surgirão negativas em outras partes do globo terrestre. Prova disto é o otimismo exacerbado do nosso presidente, enquanto países ricos tomam medidas drásticas para evitar o risco de afundar com a crise, ele afirma em alto e bom som - “que crise que nada, é apenas uma marolinha”.
A nossa constituição ainda é a lei maior, mas não em raras oportunidades achamos formas, interpretações diferentes para modificá-la e desta forma favorecer grupos ou interesses pessoais.
Exemplo do que está sendo afirmado, os juros constitucionais são de 1% ao mês, e lógico 12% ao ano, fora disto qualquer taxa maior, chama-se ou caracteriza-se Usura, e a Usura é considerada crime.
Ora veja crime, o nosso sistema financeiro navega em águas calmas, nossos bancos com orgulho estampam na mídia seus lucros extratosféricos sem nenhum temor. Acredito até que existem comemorações pelo fato de ostentarmos o título de campeões mundiais no quesito taxa de juros, pois a nossa é a mais alta do globo terrestre.
Não tenho certeza, mas parece que a Turquia anda querendo nos fazer frente e também usa juros abusivos, mas ainda somente parecidos com os nossos e estão em segundo lugar.
A política que deveria ser coisa séria, aqui na nossa terra também é diferente, em outros países por muito menos presidentes, senadores e outros, foram depostos, enfim execrados da função pública. Nós somos diferentes, convivemos pacificamente com mensalões, desvios de verbas, roubos comuns, e até nos divertimos e criamos termos para especificá-los sempre acreditando que tudo terminará em “pizza” e o pior, acreditamos quem paga o estrago não somos nós. As campanhas eleitorais são as verdadeiras alegrias do povo, termina uma já estamos pensando na próxima, nos cabos eleitorais, nas churrascadas, nas noitadas intermináveis, e na sequência as grandes promessas inconsequentes, o momento em que os problemas básicos, educação, saúde e segurança são dissecados e surge o alento das grandes soluções, e nós piamente acreditamos. Enquanto isto a nossa educação é um tubo de ensaio, até parece que não iniciamos este Brasil no ano de 1500, são invenções e mais invenções, alunos despreparados, professores mal remunerados, enfim o caos no que seria a solução. A prova disto está nos índices de repetência escolar, enquanto a média mundial está em torno de 3% a nossa situa-se no Ensino Fundamental em 19%. A alternativa certa deveria ser investir mais e de forma continuada na maioria da qualidade de ensino, sem se limitar a paliativos que apenas ajudam a melhorar as estatísticas, mas não a situação dos alunos, como é o caso da aprovação automática.
Saúde, sabemos das grandes deficiências, da mortalidade infantil, do atendimento precário aos dependentes do SUS, das filas intermináveis nas madrugadas e noites mal dormidas, mas ainda continuamos a crer que as soluções chegarão e tudo será resolvido, enquanto isto o negócio é incrementar o consumo de chás, visitar curandeiros e aperfeiçoar a arte das benzeduras. Falar em segurança é temerário e até cremos que é possível somente em campanhas eleitorais.
A situação é tão crítica que os foras da lei acreditam tanto na impunidade, que se dão o luxo de atacar cadeias de alta segurança e soltar seus companheiros, de assaltar autoridades constituídas e por último de criar suas próprias leis.
O mais cômico para não dizer trágico foi uma reportagem com um policial militar de uma capital do nosso país, quando o mesmo afirmava que escondia sua situação de policial militar, por medo de represálias por parte dos seus vizinhos, quando saía e chegava em casa sempre estava em trajes civis, trazendo a farda escondida em uma sacola, a qual somente era usada no quartel ou em serviço.
No entanto nós brasileiros continuamos firmes como rochas, acreditando que a segurança chegará, enquanto isto no momento do assalto enaltecemos as qualidades do assaltante que somente rouba mas não mata, cercamos nossas casas com grades de ferros, nos submetemos assim a uma auto-prisão, adotamos algumas dificuldades como portões eletrônicos, alarmes, criamos cães ferozes e fazemos cursos de defesa pessoal pois a única forma de garantirmos nossa integridade física é o uso das mãos, pois o uso de armas pelas pessoas honestas foi proibido por lei, permitindo seu uso somente para os foras da lei. Para provar que nada abala nosso otimismo, o presidente da República realiza pesquisas as quais aponta índices de aprovação realmente significativos, próximos do 100%. Nosso governador viaja pelo país, mostrando a eficiência da sua administração, tendo como meta o “Déficit Zero”, e quem sabe já pensando na reeleição, enquanto isto vivemos um custo de vida dos mais altos, demissões assombrando trabalhadores, funcionários públicos principalmente os mais humildes com os salários aproximando-se do zero, tudo fruto de empréstimos consignados. Mas nada abala o nosso otimismo, continuamos acreditando que aqui é uma extensão do paraíso faltando pequenos ajustes.