COLUNISTAS
Adágios populares 17/01/2025
O brasileiro é um povo que admira adágios populares e os usa com frequência, consagrando alguns, inclusive atingindo o país como um todo. Dentre estes quem sabe o mais famoso: “o negócio é levar vantagem”, mais tarde chamado também de “Lei de Gerson”. O qual em suas entrelinhas, aparentemente inocentes, traz resquícios do pensamento e da educação daqueles que foram os colonizadores da nossa pátria, onde realmente o que interessava era amealhar riquezas e o consequente poder.
O nosso estado também é pródigo em adágios, acontecendo no entanto, que por termos um linguajar próprio e característico, diferenciado dos outros estados irmãos, a maioria deles ficam restritos aos nossos limites geográficos e em alguns casos são ouvidos ainda em colônias de rio-grandenses que são encontradas em todas as regiões do Brasil. Dentre estes pois são centenas e talvez milhares, lembro, “mais liso que barriga de sapo”, indicando alguém que está sem dinheiro. “Mais alegre que égua com dois potrilhos”. “Mais faceiro que pato em taipa de açude”. “Mais gostoso que beijo de prima”. “Mais cumprido que discurso de gago”. “Mais frio que bunda de pinguim”. “Mais atrapalhado do que cusco em procissão”. “Corre mais do que notícia ruim”. “Em baile de cobra se dança de perneira”. “Em briga de cachorro grande cusco não se mete”. “Touro em rodeio alheio é vaca”. “Mais perdido que cachorro que caiu de caminhão de mudança”. “Não confie em revólver velho e bunda de criança”. “Mais desconfiado que cego com amante”. “Conheço o rengo sentado”. “Já vi tico-tico com mais ovos”. “Mordido de cobra tem medo de linguiça”. “Quem apanha não esquece”. “Pra ser mais homem precisa ter três bolas”. “Mais atrapalhado que cego em tiroteio”. “Mais feio que briga de foice no escuro”.
Sobre cada um dos adágios acima enumerados caberia uma explanação detalhada e quem sabe uma obra literária poderia tomar forma ou tomar corpo como o gaúcho gosta de dizer.
Escolhi dois que mais me chamaram a atenção: o primeiro “em briga de cachorro grande, cusco não entra”. É um excelente conselho pois a corda sempre estoura na ponta mais fraca.
Mesmo assim eu vou entrar na briga de cachorro grande e o que me força a agir desta forma é o segundo adágio escolhido - “o furo é mais embaixo”, o qual por sinal não constava da lista anterior, exatamente para deixá-lo em posição de destaque.
O furo é mais embaixo, é usado de várias formas, por exemplo, quando alguém é abordado por uma autoridade - estufa o peito e pergunta:
Sabes quem sou? Olha que comigo o furo é mais embaixo. Quando acontece uma briga o que está com medo dá o peitaço e tenta assustar o oponente com o “cuidado que comigo o furo é mais embaixo”, assim por diante é tremendamente empregado.
Cabe aqui um comentário que se encaixa perfeitamente no último dito popular em destaque, diariamente, através de jornais, televisão e rádios, vemos condenações implacáveis a prefeitos, presidente de Câmaras de Vereadores pelos mais variados atos cometidos, bem como, o parecer desfavorável pelo Tribunal de Contas para aprovação das prestações de contas anuais. Fatos que ocasionam cassações, devoluções de numerários, enfim, uma série de complicações com os órgãos responsáveis pela fiscalização ou com a aplicação de penas. Rigor este como seria justo de se esperar que acontecesse em todos os níveis da administração pública, no entanto, não foi o que aconteceu e nem o que vimos no dia 23 de setembro, próximo passado, quando o Tribunal de Contas do Estado deu parecer favorável à prestação de contas do último ano do governo Olívio Dutra. A relatora do processo em seu relato apontou várias irregularidades e indicava a desaprovação das contas. No final venceu a maioria, salientando que a função do Tribunal de Contas, no caso das contas do governador, restringe-se à emissão de parecer “técnico-opinativo”. Observando ainda que compete à Assembleia Legislativa o julgamento político.
Não se pode exigir o materialmente impossível de ser cumprido.
Não entendemos o porque da diferença do julgamento dos administradores municipais, que têm dificuldades maiores. Quanto à assessoria são pressionados pela população em suas casas, nas ruas, nas prefeituras e câmaras, sem a observação de horários, nem dias.
Para tentar explicar a diferença, só nos resta acreditar na força do “comigo o furo é mais embaixo” e passar a respeitar o conselho que - “em briga de cachorro grande cusco não se mete”.