COLUNISTAS

Bom plágio 07/02/2025

Criei o hábito de ler, e hoje leio tudo que me cai nas mãos. Sou “jornal-maníaco”, daqueles que ficam na porta esperando o entregador. Quando canso dos livros técnicos parto para o romance e os demais variados assuntos não passam despercebidos.
Nesta semana que passou, consegui junto a nossa biblioteca a obra “A cortina de Ouro”, cujo autor, Cristovam Buarque, é um brasileiro que não perde a capacidade de se indignar. Seus ensaios teóricos e políticos e, inclusive seus romances são todos uma denúncia. Trazem um apelo à mobilização.
A obra acima citada foi escrita no ano de 1995, é uma síntese dos erros cometidos pela nossa e outras gerações, que antecederam a nossa, nos estimulando a pensar e lutar para que o rumo perseguido pelos atuais habitantes da terra seja corrigido.
Dado a importância da obra, recomendo sua leitura e sem preconceito algum pelo bom plágio, transcrevo o capítulo “A desintegração do homem”: Enquanto se assustam positivamente com a rápida integração, os homens se espantam com a divisão da sociedade humana na nova aldeia global. Se este foi o século da integração do planeta, foi também, paradoxalmente, p século da ampliação, da desigualdade4 e da criação de uma desintegração social nunca antes vista.
A integração entre os homens de todos os países ocorreu quase simultaneamente a uma radical desintegração do homem dentro de cada país, provocando um grande susto de final de século: a construção de uma integração desintegradora; o assombro de ter sido possível integrar de forma tão estreita os homens entre si e ao mesmo tempo desintegrar o homem em si.
O ano 2000 apresentara um planeta com todos os homens em comunicação direta em uma só cultura, mas em duas sociedades separadas por “brutal” apartação que afasta os que tem acesso às novas técnicas, daqueles condenados às velhas técnicas do passado, os que ingressaram dos que ficaram excluídos do poder dos novos conhecimentos. 
Quando a Europa iniciou a reparação de sua economia, depois da segunda Guerra Mundial, havia a crença de que graças ao impulso econômico, uma sociedade deconsumo se espalharia por todo o planeta. Quando a partir do anos 1950, os utopistas do desenvolvimento iniciaram as medidas de indução ao crescimento econômico nos países periféricos, acreditava-se que antes do final do século, as populações desses países teriam o mesmo padrão e nível de desenvolvimento do chamado Primeiro Mundo.
As duas previsões concretizaram-se, mas limitadas apenas a uma parte da população de cada país. O mundo integrado do final do século XX é um mundo na verdade desintegrado, que separa os que usufruem da abundância, da riqueza e do luxo, daqueles que estão imersos na mais gritante miséria, fome e suheira.
Foi no século XVIII que surgiu a ideia de que todos os homens tem direitos iguais, sem separação entre bárbaros e civilizados, aristocratas e servos. Foi um longo processo desde o tempo dos faraós, dos homens, deuses, até firmar-se a ideia de que os seres humanos teriam direitos equivalentes.
Duzentos anos depois, a humanidade começa ser outra vez brutalmente desintegrada. Nos séculos anteriores, os homens estavam separados em nações isoladas e em cada uma delas havia diferenças entre aristocratas e plebeus, mas pouca diferença havia no acesso aos produtos básicos para a sobrevivência: alimentação, saúde, educação.
No final do século XX, com o avanço técnico, o consumo ampliou o número dos que podem se sentir aristocratas, quase deuses, por meio de privilégios que nenhum faraó imaginaria. Mas manteve a maioria da população em condições tão precárias quanto viviam há 4000 anos os escravos no Egito. Ao observar ao redor, o homem percebe que o século XX ampliou a desigualdade.
Se a medicina, o transporte, os bens e serviços à disposição dos aristocratas, dos faraós, dos ricos do passado que estavam próximos daqueles de que dispunham os pobres da época, hoje o consumo de uma pessoa de classe média está distante do consumo dos pobres. No lugar da desigualdade surgiu um fosso.
Os ricos dispõem de aviões e helicópteros, que nas emergências os transportam diretamente para hospitais, onde tratamentos especiais fazem milagres. Enquanto isso, os pobres do mundo, pouco importa em que pais vivam, continuam sem saneamento e sem saúde, com um atendimento médico não muito diferente daquele dos tempos antigos.
Até o século passado, a taxa de mortalidade infantil era a mesma em qualquer grupo social de qualquer país. Em poucas décadas, foi possível abolir a mortalidade infantil na parcela das famílias ricas e de classe média do mundo inteiro, enquanto entre os pobres continua em situações próximas do passado. A esperança de vida dos faraós, dos reis medievais ou de um rico do século passado, não era maior do que qualquer um de seus súditos ou seus empregados. Hoje, a esperança de vida de cem cidadãos do primeiro mundo internacional dos ricos é quase duas vezes maior do que há um século, mas a esperança de vida dos pobres é quase a mesma de antes.
Os poucos indicadores de saúde que beneficiam igualmente os pobres e os ricos, como a erradicação da varíola e da poliomielite, foram conseguidos por que se tratava de doenças que atacavam igualmente os pobres e os ricos. Para beneficiar estes, era preciso incorporar aqueles no benefício da vacina. Finalmente, mas não menos indicativo da imensa desigualdade criada entre os homens neste século, muitas pessoas conquistaram o direito ao lazer e a possibilidade de usufruí-lo sob uma enorme variedade de alternativas. Mas bilhões de homens são obrigados a trabalhar duramente até os últimos dias de sua vida e outros vegetam no desemprego.
A integração desintegradora do consumo, deve despertar a consciência de que a técnica começa a construir não apenas a desigualdade, mas a dividira espécie humana em dois tipos biológicos diferentes, os que têm doenças e os que vivem doentes, os fortes e inteligentes e os fracos e deficientes, os que vivem mais e os que vivem menos.
Estas são as ideias do Dr. Cristovam Buarque, um iluminado com condições de combater as desigualdades. Este homem concorreu ao cargo de presidente da república, e obteve uma votação inexpressiva. Algo para pensar!!!!

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