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Frágeis gigantes ou vamos seguir o fluxo? O efeito dominó da reestruturação no Brasil de 2026 - 27/03/2026

‘Recentemente, presenciamos o anúncio simultâneo dos pedidos de recuperação extrajudicial do Grupo Pão de Açúcar (GPA) e da Raízen, marcando um ponto de inflexão na história corporativa brasileira. A princípio, não se trata apenas de ajustes contábeis isolados- como no caso Americanas -, mas da exposição das vísceras de um modelo econômico asfixiado por juros reais elevados e por uma conjuntura geopolítica que pressiona, cada vez mais, o empresariado.
O GPA, que já teve seu ápice no varejo alimentar, busca renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões. O que há em comum entre esses dois casos, embora pertençam a segmentos distintos, é a insustentabilidade da estrutura de capital diante da persistência de taxas de juros que corroem a geração de caixa. No varejo, o GPA padece com a compressão de margens e a mudança no perfil de consumo. Já a Raízen ajusta-se à volatilidade extrema das commodities e ao custo proibitivo do refinanciamento de seus investimentos em expansão.
  A opção pela via extrajudicial - e não pela judicial tradicional - revela um movimento estratégico: firmar acordos prévios com credores para evitar a paralisia operacional e o estigma da falência iminente, preservando a continuidade de milhares de empregos, além de cadeias inteiras de fornecedores e clientes.
  As consequências para a economia brasileira, como de praxe, são profundas e preocupantes. Em 2025, o país registrou um recorde histórico de mais de 5.600 empresas em recuperação, um aumento de aproximadamente 24% em relação ao ano anterior. Mais grave ainda é que, quando gigantes como GPA e Raízen entram nesse processo, o efeito imediato é a restrição severa de crédito em todo o mercado. Bancos e investidores tornam-se ainda mais conservadores, elevando spreads e criando um efeito cascata que atinge diretamente médias e pequenas empresas dependentes da liquidez do sistema.
Não se pode ignorar, também, o risco real de desabastecimento em cadeias produtivas específicas, bem como uma pressão inflacionária residual decorrente da ineficiência operacional gerada por crises dessa magnitude. Somando-se a isso, em um cenário de crise geopolítica global - com cadeias de suprimentos fragmentadas e incertezas energéticas -, esses pedidos de recuperação funcionam como um alerta de fragilidade estrutural do país.
A incapacidade de grandes grupos brasileiros em honrar compromissos sinaliza ao capital estrangeiro um ambiente de risco elevado, o que pode afastar investimentos diretos - essenciais para a retomada do crescimento. Se o Estado e o sistema financeiro não encontrarem mecanismos para aliviar o peso do serviço da dívida, o que hoje se observa nos grandes grupos pode ser apenas a antevisão de uma onda de insolvências capaz de comprometer a estabilidade econômica por anos.
 
DADOS QUE EXPLICAM A CRISE
• Hesib e o recorde histórico: o passivo arrolado na recuperação extrajudicial chega a R$ 65,1 bilhões - o maior já registrado no Brasil nesse tipo de mecanismo. A alavancagem atingiu 5,1x Dívida Líquida/EBITDA, patamar considerado crítico em ambiente de juros elevados.
• GPA e o custo de carregamento: mesmo com redução da dívida bruta para cerca de R$ 4,5 bilhões, o custo de manutenção permanece elevado diante da Selic ainda próxima de 15% ao ano. O valor de mercado da companhia caiu para aproximadamente R$ 1,1 bilhão - ou seja, a dívida supera em quatro vezes o valor da empresa.
• Exposição ao crédito privado: os dois processos somados impactam cerca de R$ 16 bilhões em títulos de renda fixa (debêntures, CRIs e CRAs), com pagamentos suspensos durante as renegociações.
 
FATORES EXTERNOS
A persistência da Selic em patamares elevados segue como principal catalisador - ainda que recentemente tenha recuado para 14,75%. Empresas intensivas em capital, como a Raízen, e de margens apertadas, como o GPA, veem o custo da dívida consumir praticamente toda a geração de caixa, inviabilizando novos investimentos e amortizações. A crise geopolítica global - incluindo tensões no Oriente Médio e a fragmentação das cadeias de suprimentos - pressiona os preços do petróleo e das commodities agrícolas, como açúcar e etanol, ampliando a incerteza e dificultando o planejamento de longo prazo.
No caso do GPA, soma-se ainda a ameaça de aproximadamente R$ 17 bilhões em passivos tributários incertos, ampliando significativamente o risco de insolvência.
 
IMPACTOS SISTÊMICOS NA ECONOMIA
O recorde de 5.680 empresas em recuperação judicial em 2025, com alta de 24,3% em relação a 2024, reforça que não se trata de casos isolados. O enfraquecimento de gigantes como GPA e Raízen aponta para uma possível onda de reestruturações que pode alcançar setores estratégicos, como siderurgia e petroquímica.
De forma direta, a retirada dessas companhias do Ibovespa e de outros índices da B3 reduz a liquidez de suas ações e afasta investidores institucionais, especialmente estrangeiros. O efeito de contágio se espalha pelo mercado de crédito privado, elevando o custo de capital para todo o setor produtivo e desacelerando o crescimento do PIB. Em síntese, quando gigantes vacilam, não caem sozinhos - arrastam consigo a confiança, o crédito e, muitas vezes, a própria dinâmica da economia.

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