COLUNISTAS

21/03/2025

Lagoa Vermelha mantém força no setor moveleiro, mas enfrenta redução de indústrias e falta de mão de obra 
Presidente da CICAS e diretor da Barcellona Móveis, empresário Valter Ferreira da Silva, entrevistado pela Folha News, destaca que o município é o segundo polo nacional na produção de móveis econômicos e projeta crescimento gradual do setor
O setor moveleiro segue sendo um dos principais pilares da economia de Lagoa Vermelha, mesmo diante das transformações e desafios das últimas décadas. De um passado com mais de cem indústrias atuantes, o município hoje conta com 24 empresas associadas ao SICOM (Sindicato da Indústria da Construção e do Mobiliário), além de algumas que atuam de forma independente.
A redução no número de empresas, segundo o presidente da CICAS e diretor da Barcellona Móveis, Valter Ferreira da Silva, é reflexo das crises econômicas, da globalização, da alta carga tributária e, principalmente, da dificuldade crescente em encontrar mão de obra qualificada.
Apesar disso, Lagoa Vermelha mantém sua força e destaque no cenário nacional. “O faturamento do setor se mantém estável e até superior aos tempos em que tínhamos mais de 80 indústrias em atividade. Isso se deve à evolução dos processos, ao investimento em tecnologia e à qualificação de parte da mão de obra”, afirma Valter.
Hoje o município é reconhecido como o terceiro maior polo moveleiro do país e o segundo na produção de móveis econômicos, atrás apenas de Arapongas (PR)
 
Participação reduzida na Movelsul, mas setor segue relevante
Na 24ª edição da Movelsul, realizada em Bento Gonçalves, Lagoa Vermelha participou com oito empresas, número bem inferior às 57 indústrias que já representaram o município no auge da feira. A redução, segundo Valter, reflete o novo cenário da indústria moveleira local.
“A participação diminuiu, mas as empresas que se mantêm estão sólidas e com grande capacidade de produção”, destaca. Valter ressalta ainda que a Movelsul 2025 teve um forte foco nas exportações, reunindo 247 expositores e compradores de 47 países, com destaque para a América Latina, América Central e África.
 
Exportações ganham espaço, mas mercado interno ainda lidera
O direcionamento da Movelsul para o mercado externo evidencia o esforço da indústria nacional em buscar alternativas diante das dificuldades do mercado interno. Contudo, Valter reforça que o mercado brasileiro continua sendo o mais relevante.
“As exportações representam entre 14% e 15% do setor. O grande mercado ainda é o nacional, especialmente o Nordeste, que tem alto consumo de móveis econômicos”, destaca.
Mesmo com o dólar elevado, o ganho real nas exportações é pequeno, já que a matéria-prima também encarece. “O lucro é relativo, porque é preciso conceder descontos e fazer um planejamento fiscal rigoroso para não acumular crédito tributário”, explica.
 
Escassez de mão de obra é o principal entrave
O maior desafio do setor atualmente está na falta de mão de obra qualificada. Mesmo com iniciativas como os projetos Qualificar e Querer, além das parcerias com o Senai, a dificuldade de encontrar trabalhadores capacitados tem limitado o crescimento da indústria local.
“Temos vagas e salários atrativos, mas muitos jovens não se interessam pelo trabalho na indústria. Preferem áreas como o comércio ou serviços, muitas vezes pelo conforto do ambiente. Isso dificulta o crescimento e a reposição da mão de obra”, pontua Valter.
Ele destaca que a indústria moveleira oferece estabilidade, bons salários e possibilidades reais de crescimento profissional, mas o setor enfrenta um desinteresse cada vez maior por parte da juventude.
 
União entre setor público e empresários garante avanços
Valter Ferreira da Silva reconhece o esforço do setor público na busca de soluções para fortalecer a indústria moveleira, como a criação de novas áreas industriais e a ampliação da oferta de cursos de qualificação.
Além disso, ele destaca a união cada vez maior entre os empresários, o que tem sido fundamental para enfrentar os desafios do setor. “Hoje há mais diálogo e trabalho conjunto, especialmente quando se trata de buscar soluções para problemas comuns”, afirma.
Um exemplo disso é a participação da Barcellona Móveis no programa GPTW (Great Place to Work), que reconhece as melhores empresas para se trabalhar no Brasil. “Investimos em gestão de pessoas para mostrar que o setor moveleiro oferece oportunidades reais de crescimento e um ambiente de trabalho saudável”, completa.
 
Crescimento será gradual e depende da mão de obra
Mesmo com as dificuldades, Valter aposta na continuidade do crescimento do setor, ainda que de forma gradual. Para ele, Lagoa Vermelha tem potencial para atrair novos empreendimentos e diversificar a indústria, desde que o problema da mão de obra seja superado.
“Temos capacidade de crescer, mas falta gente. Hoje estamos estagnados não por falta de mercado, mas pela ausência de mão de obra qualificada e, muitas vezes, até de interesse em trabalhar”, alerta.
Valter também chama atenção para o impacto dos programas sociais na disposição para o trabalho. “Infelizmente, temos mais pessoas em programas como o Bolsa Família do que efetivamente trabalhando. Isso precisa ser repensado porque a indústria moveleira tem potencial de gerar riqueza e mudar vidas”.
 
Feiras locais seguem como possibilidade futura
Sobre a possibilidade de retomar as feiras locais, como a antiga Expolagoa, Valter avalia que o projeto é viável e importante, especialmente para divulgar o potencial da indústria local, mas só será possível com engajamento coletivo.
“O retorno financeiro direto de uma feira local é pequeno, mas o ganho institucional e de visibilidade é enorme. Seria uma oportunidade de mostrar a força da nossa indústria e atrair novos negócios”, pondera.
Valter cita o exemplo do Rodeio Internacional de Lagoa Vermelha, que teve repercussão nacional e mostrou o potencial da cidade para realizar grandes eventos. “Com a mesma união e dedicação, podemos sim pensar na retomada de uma feira que destaque o nosso setor”, finaliza.
 
Barcellona segue investindo e projeta novos passos
Com 27 anos de história, a Barcellona Móveis segue como referência da indústria moveleira em Lagoa Vermelha. A empresa está finalizando uma importante reestruturação e já projeta novos investimentos.
“Estamos dentro do cronograma e, em 2025, devemos concluir essa etapa. Depois disso, vamos avaliar novas possibilidades de expansão. Nosso foco é manter a Barcellona forte e contribuir para o desenvolvimento de Lagoa Vermelha”, conclui Valter Ferreira da Silva.
 
Equívoco da coluna
Vereador Clacir Francisco Bonatto, do Podemos, não é “oposição” ao governo municipal, conforme noticiou a coluna semana passada. Clacir integra o grupo de apoio a administração do prefeito Eloir Morona.
 
Para debater
A pacificação política do Brasil seria alcançada com saída do cenário político de Bolsonaro e Lula?

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