COLUNISTAS

11/09/2026

CAMPANHA FRIA NAS RUAS, 
QUENTE NOS BASTIDORES
Quem olha apenas para as ruas de Lagoa Vermelha pode ter a impressão de que a eleição ainda não começou. Faltam grandes atos, bandeiras e aquela efervescência que costuma aparecer quando o pleito se aproxima. Nos bastidores, porém, a realidade é outra. Partidos, cabos eleitorais, vereadores, dirigentes e lideranças já fazem visitas, organizam apoios e participam de eventos sociais, comunitários e esportivos, principalmente nos finais de semana. A campanha de 2026, até aqui, parece menos barulhenta diante do eleitor e muito mais intensa longe dos holofotes. PL, PP e aliados trabalham pela candidatura de Zucco ao Governo do Estado; PDT, PT, PSB e demais partidos do campo de Juliana Brizola também se movimentam. O eleitor, contudo, ainda observa mais do que participa.
 
O ELEITOR AINDA ESTÁ NA JANELA
Há uma distância visível entre o envolvimento de quem vive a política diariamente e o cidadão que começa somente agora a prestar atenção na campanha. O ambiente nacional também pesa. As tensões envolvendo Executivo, Legislativo e Judiciário alimentam desgaste e desconfiança em parte da população, independentemente da posição ideológica. Isso pode produzir um eleitor mais silencioso e mais difícil de medir. Em Lagoa Vermelha, o histórico recente favoreceu candidaturas identificadas com a direita e a centro-direita, situação que oferece a Zucco uma base potencialmente favorável. Mas histórico não é cheque em branco. A esquerda e a centro-esquerda têm eleitorado, organização partidária e lideranças locais, e apostam no crescimento de Juliana Brizola. A eleição ainda precisa ganhar as ruas, e boa parte da disputa será pela parcela do eleitorado que ainda não se manifestou.
 
O PARADOXO DO PL
Talvez o movimento mais interessante desta campanha esteja dentro do próprio PL. A sigla possui três vereadores, bancada forte e participação ativa na Administração Municipal, mas parte de suas lideranças mais influentes não concentra os votos proporcionais apenas nos candidatos do partido. Enquanto o PL trabalha por Zucco para governador, importantes nomes locais direcionam apoio a candidatos do PP, especialmente Rodrigo Lorenzoni para deputado estadual e Onyx Lorenzoni para deputado federal. Não se trata de rompimento entre as legendas, que estão juntas no projeto estadual, mas a situação revela uma característica conhecida da política do interior: às vezes a relação pessoal pesa tanto ou mais que a fidelidade partidária. A fotografia oficial mostra os partidos; os bastidores mostram as pessoas.
 
IVAN BARRETO, PAPARICO E CHERINI
   Neste tabuleiro aparece Ivan José Galvani Barreto, liderança tradicional e com forte capacidade de articulação. Sua proximidade com o grupo dos Lorenzoni agregou apoiadores e lideranças, inclusive dentro do PL, às candidaturas do PP. A questão mais interessante talvez esteja no dia seguinte à eleição. Se Zucco vencer o Governo do Estado e candidatos do próprio PL forem eleitos sem terem recebido apoio de dirigentes e vereadores locais da sigla, haverá reflexo interno? Pode ser que não, mas política tem memória. Depois do pleito, dirigentes observam onde cada candidato fez votos, quem trabalhou por quem e quem entregou resultado. Ao mesmo tempo, Paparico Bacchi disputa a reeleição para deputado estadual e deve receber votação em Lagoa Vermelha, enquanto Giovani Cherini também possui apoiadores no município para a Câmara Federal. O PL, portanto, não está necessariamente dividido em relação ao projeto estadual, mas apresenta diferentes caminhos na eleição proporcional.
 
SANTINI E O PESO DO VOTO DA TERRA
No meio dessa distribuição de apoios existe um nome que interfere diretamente em qualquer cálculo para deputado estadual: Ronaldo Santini. Em 2022, ele conquistou 6.306 votos em Lagoa Vermelha, votação expressiva e suficiente para demonstrar uma base eleitoral consolidada em sua terra natal. Agora, candidato pelo Podemos, volta à disputa com um capital importante: presença constante no município e na região, serviços prestados e uma rede de relacionamentos que ultrapassa as fronteiras partidárias. É público no meio político que lideranças vinculadas a diferentes siglas mantêm proximidade com Santini e algumas trabalham por sua candidatura. Surge novamente o conflito clássico entre duas fidelidades: o voto no partido e o voto em quem representa o município. Em eleições proporcionais, esse sentimento regional pode fazer diferença.
 
A ESQUERDA TAMBÉM FAZ SUAS CONTAS
No campo que apoia Juliana Brizola, a organização também acontece. PT, PDT, PSB e aliados possuem seus candidatos e precisam administrar o mesmo problema dos demais: evitar pulverização excessiva dos votos. André Oliveira, candidato a deputado estadual pelo PSB e com ligação com Lagoa Vermelha, trabalha regionalmente ao lado de Beto Albuquerque para deputado federal. No PDT, Felippe Rieth, ex-prefeito de Capão Bonito do Sul e natural de Lagoa Vermelha, disputa uma vaga na Câmara Federal e já apresentou suas propostas em entrevista ao Folha News. O partido também trabalha com Gilmar Sossella para deputado estadual. É um grupo que não pode ser subestimado apenas porque a direita teve desempenho forte em pleitos recentes. A esquerda possui militância, estrutura e eleitorado fiel e deverá buscar ampliar seu espaço nesta reta final.
 
PP, PSD E MDB BUSCAM ESPAÇO
O PP aparece com diversas frentes. Além de Rodrigo Lorenzoni e Onyx Lorenzoni, Sandro do Covatti busca votos para deputado estadual, Covatti Filho trabalha pela reeleição à Câmara Federal e Guilherme Pasin também deverá receber votos no município. É força, mas também é divisão da própria base. O PSD trabalha com Luciano Azevedo para deputado federal, ex-prefeito de Passo Fundo, tendo em Lagoa Vermelha Admilson Ferreira da Silva, integrante da Administração Municipal, como uma de suas principais referências. Já o MDB tenta ampliar presença na campanha. Em conversa com esta coluna, a presidente municipal Inaira Carneiro informou que o partido trabalha para viabilizar uma visita do candidato ao Governo do Estado, Gabriel Souza, ainda sem data confirmada. Do outro lado, lideranças do PDT e do PT articulam uma possível presença de Juliana Brizola no município.
 
A PULVERIZAÇÃO E A 
CONTA DAS LIDERANÇAS
Talvez o maior adversário das candidaturas locais e regionais não tenha número na urna: chama-se pulverização. Dezenas de candidatos a deputado estadual e federal receberão votos em Lagoa Vermelha. Alguns conquistarão milhares, outros centenas, dezenas ou apenas alguns votos. Para os partidos, isso faz parte do sistema proporcional. Para quem defende maior representatividade regional, porém, a dispersão pode reduzir a força dos candidatos com vínculos mais diretos com o município. Por isso o discurso do “voto da região” ganha espaço, embora proximidade geográfica, sozinha, não garanta voto. E há outra conta silenciosa nos bastidores: quem realmente consegue entregar apoio? Vereadores, secretários, ex-prefeitos, dirigentes, empresários e lideranças comunitárias anunciam seus candidatos, mas urna não aceita declaração de apoio; urna conta voto. O resultado revelará quem transferiu prestígio político e quais articulações tiveram mais discurso do que resultado. Essa leitura poderá influenciar inclusive a reorganização dos partidos para 2028.
 
E OS EX-PREFEITOS,
QUANTO AINDA PESAM?
Há ainda personagens que não ocupam atualmente o comando da Prefeitura, mas continuam presentes no cenário político e não podem ser ignorados: os ex-prefeitos Getulio Cerioli, do PDT, Paulo Moysés de Andrade, ligado ao MDB, e Moacir Volpato, PP, novamente presente nas movimentações partidárias. São três lideranças que já passaram pelo principal cargo político do município, carregam história eleitoral, relacionamentos e conhecimento profundo dos diferentes segmentos da comunidade. A pergunta interessante nesta eleição não é se possuem influência - todos, em diferentes proporções, possuem -, mas quanto dessa influência ainda consegue ser transformada em voto. Getúlio Cerioli, inclusive, voltou à urna em 2024 e obteve 3.662 votos na disputa pela Prefeitura, demonstrando que continua com eleitorado próprio. Os ex-prefeitos podem funcionar como importantes avalistas de candidaturas, abrir portas, reunir antigos apoiadores e aproximar candidatos de segmentos onde já possuem trânsito. Mas existe uma diferença fundamental entre prestígio e transferência de voto. O eleitor de hoje é menos obediente a lideranças tradicionais do que já foi no passado. Por isso, o desempenho dos candidatos apoiados por Cerioli, Paulo Andrade e Volpato também servirá como termômetro da força política que cada ex-prefeito ainda mantém. Em política, deixar o cargo não significa necessariamente deixar o jogo.
 
ELOIR E ALESSANDRO: 
O PESO DE QUEM ESTÁ NO PODER
Se os ex-prefeitos carregam história, Eloir Morona e Alessandro Muliterno possuem outra vantagem: estão no exercício do poder municipal. Morona, do PP, foi eleito em 2024 com 8.549 votos, 55,75% dos votos válidos, tendo Alessandro, do Podemos, como vice. Isso naturalmente coloca os dois entre as lideranças mais observadas nesta eleição. O prefeito administra uma estrutura política ampla, mantém contato diário com lideranças, comunidades e diferentes setores da sociedade e pertence a um partido que possui vários candidatos buscando votos no município. Alessandro, por sua vez, encontra-se numa posição especialmente interessante: integra uma administração comandada pelo PP, mas pertence ao Podemos, justamente o partido de Ronaldo Santini. Até onde prefeito e vice conseguirão transformar aprovação administrativa, relações políticas e presença comunitária em votos para seus respectivos candidatos? Essa é uma das melhores perguntas da eleição local. Existe também um teste de convivência: PP e Podemos administram juntos o município, mas possuem interesses próprios na disputa proporcional. Eloir terá candidatos naturais de seu partido; Alessandro possui uma ligação partidária evidente com Santini. A campanha mostrará se essa diversidade será administrada tranquilamente ou se produzirá algum desconforto nos bastidores. Mais do que medir os votos dos candidatos, a eleição também medirá o poder de influência política do atual prefeito e do vice. Para quem já pensa no tabuleiro municipal de 2028, não será uma informação pequena.
 
A CALMARIA PODE ENGANAR
Por enquanto, Lagoa Vermelha ainda não vive uma campanha de grande intensidade popular. Mas a aparente tranquilidade não significa ausência de disputa. A direita parte de um histórico recente favorável, mas precisa transformar novamente essa tendência em voto. A esquerda acredita que pode crescer e aposta em Juliana Brizola. O PL demonstra força, embora divida parte dos apoios proporcionais. O PP recebe apoios importantes e trabalha várias candidaturas. Santini aposta no peso do voto local. PSB e PDT apresentam nomes com identificação regional, enquanto PSD e MDB também procuram espaço. No fim, a campanha poderá ser definida menos pelas siglas e mais pela capacidade de cada grupo chegar ao eleitor. Até agora, ele observa. Nas próximas semanas, todos estarão batendo à sua porta. E aí, de fato, começará a verdadeira eleição.

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