COLUNISTAS
A desigualdade social no Brasil: um abismo persistente - 06/02/2026
A desigualdade social no Brasil permanece como uma das marcas mais profundas da sociedade, mesmo após avanços pontuais em políticas públicas. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023 o rendimento médio mensal dos 10% mais ricos foi mais de 13 vezes superior ao dos 40% mais pobres. Esse distanciamento se reflete em todos os aspectos da vida do brasileiro: acesso à educação, saúde, saneamento básico e oportunidades de trabalho.
O Índice de Gini, o qual mede a desigualdade de renda, oscilou nos últimos anos em torno de 0,53 no Brasil, um dos mais altos da América Latina. Embora programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, tenham contribuído para reduzir a pobreza extrema, o país ainda figura entre os mais desiguais do mundo. O Banco Mundial aponta que cerca de 27% da população brasileira vive em situação de vulnerabilidade socioeconômica, sem acesso pleno a serviços essenciais, os quais são garantidos pela Constituição Federal.
RAÍZES HISTÓRICAS E
DESIGUALDADE RACIAL
A desigualdade tem raízes históricas, fato. Desde o período colonial, a concentração fundiária e a escravidão moldaram uma estrutura social excluindo indivíduos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) destaca que a herança da escravidão ainda se manifesta na desigualdade racial: em 2022, a renda média da população negra correspondia a apenas 57% da renda da população branca, e o acesso à educação de qualidade continua restrito: apenas 17% dos jovens de famílias pobres conseguem concluir o ensino superior, contra mais de 60% entre as famílias com maior capital.
MERCADO DE TRABALHO
E INFORMALIDADE
Outro aspecto crítico é o mercado de trabalho. A informalidade, mesmo com a criação do Micro Empreendedor Individual em 2006, atinge cerca de 40% da força de trabalho, o que significa milhões de brasileiros sem carteira assinada, sem direitos trabalhistas e sem previdência, vindo a reforçar o ciclo de pobreza e limitando a mobilidade social. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta que o Brasil precisa investir em políticas de formalização e qualificação profissional para enfrentar esse quadro.
DESIGUALDADE NO ACESSO
À SAÚDE E AO SANEAMENTO
No campo da saúde, a desigualdade também é evidente. Conforme o Ministério da Saúde, a expectativa de vida em bairros ricos de capitais pode ser até 20 anos maior do que em bairros periféricos. O acesso desigual a saneamento básico é outro fator: em 2023, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não tinham acesso a água tratada, e mais de 100 milhões não tinham coleta de esgoto adequada.
O ORÇAMENTO PÚBLICO E
AS PRIORIDADES DO ESTADO
O que se observa, com a divulgação do Plano Orçamentário 2026, onde as áreas de Saúde e Educação contarão com recursos totais de R$ 271,3 bilhões e R$ 233,7 bilhões, respectivamente. Para o Bolsa Família, foram reservados R$ 158,63 bilhões, enquanto o programa de incentivo financeiro para estudantes do Ensino Médio, o Pé de Meia, contará com R$ 11,47 bilhões. Outros R$ 4,7 bilhões estão previstos para o programa que garante acesso a botijão de gás a famílias de baixa renda. Fonte: Agência Senado.
Porém, para Emendas Parlamentares (que nem no papel estão), a Lei Orçamentária prevê aproximadamente R$ 61 bilhões, e caso não seja suficiente, o faltante pode ser subtraído do que foi previsto para a saúde e educação.
RENDA, TRIBUTAÇÃO E
LIMITES DO MODELO ATUAL
É por todos conhecido que 90% da população brasileira percebe até, no máximo, três salários mínimos mensais e, desta proporção, 80% até um salário mínimo. Analisando-se a lógica e a matemática, é praticamente impossível mudar esse quadro, a menos que houvesse um zeramento das contas públicas e uma reformulação de todo o contexto.
INICIATIVAS E DESAFIOS PARA SUPERAR O ABISMO SOCIAL
Mesmo com sinais de mobilização, haja vista o lançamento, em 2025, do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, reunindo entidades da sociedade civil, universidades e governos locais, cuja proposta é articular políticas de redistribuição de renda, tributação mais progressiva e investimentos em educação básica, especialistas defendem que, sem uma reforma tributária que reduza privilégios e aumente a contribuição dos mais ricos, será impossível enfrentar o abismo social (ou seja, a também conhecida corrida dos ratos).
UMA CONTRADIÇÃO
QUE PERSISTE
O Brasil vive uma contradição imortal, sendo uma das maiores economias do mundo, convivendo com índices de desigualdade comparáveis aos de países muito mais pobres. É certo que a superação desse quadro exige não apenas crescimento econômico, mas sobretudo inclusão social, políticas redistributivas e garantia de direitos básicos. Enquanto isso não acontecer, a desigualdade continuará sendo o retrato mais fiel da realidade brasileira.


Radar ON-LINE: